Laboratório da UFMS cria games para enfrentar desafios da sociedade
Fonte: Diário Digital
Mais do que formar desenvolvedores e artistas para o Estado, o Ledes Games busca fortalecer um ecossistema de empreendedorismo, inovação e economia criativa. (Foto: Vanessa Amin)
E se jogar também significasse refletir, aprender e ajudar a solucionar problemas reais da sociedade? Essa é a proposta que vem transformando o desenvolvimento de games digitais dentro das universidades brasileiras, onde os jogos deixam de ocupar apenas o espaço do entretenimento para assumirem um novo papel: o de instrumentos de pesquisa científica, inovação, empreendedorismo e transformação social.
Na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), estudantes e professores do Laboratório de Engenharia de Software (Ledes), vinculado à Faculdade de Computação (Facom), vêm desenvolvendo games digitais voltados à educação ambiental, acessibilidade, inclusão social, saúde e formação cidadã, consolidando Mato Grosso do Sul como um polo emergente da indústria criativa e tecnológica.
Mais do que formar desenvolvedores e artistas para o Estado, o Ledes Games busca fortalecer um ecossistema de empreendedorismo, inovação e economia criativa, conectando universidade, mercado e sociedade por meio de soluções tecnológicas capazes de gerar impacto social e crescimento econômico.
Segundo o coordenador do projeto, professor Ricardo Theis Geraldi, a iniciativa está estruturada em dois eixos complementares: pesquisa científica e extensão universitária.
“O Ledes Games integra um projeto de extensão chamado Engenharia Criativa de Games Digitais e uma pesquisa voltada à modelagem de sistemas modernos e intensivos em paradigmas emergentes. A extensão gera inovação com novos games digitais voltados à resolução de problemas complexos da sociedade, enquanto a pesquisa investiga essas soluções de forma científica e sistemática”, explica.
Essa integração permite que os games funcionem simultaneamente como produtos aplicados e objetos de investigação acadêmica, fortalecendo a produção científica na área de engenharia de games digitais.
De iniciativa estudantil a referência em inovação
O projeto começou a ganhar forma a partir da iniciativa dos estudantes Gilvan Júnior e Miguel Albuquerque, integrantes do PET Sistemas.
“Em 2024, começamos o desenvolvimento dos games Museu das Mulheres (Des)conhecidas e Pantanal World. O time surgiu justamente do nosso interesse pela área de desenvolvimento de games”, lembram.
O crescimento da iniciativa atraiu novos estudantes de diferentes áreas, envolvendo profissionais e acadêmicos ligados à arte, design, música e comunicação. Ainda em 2024, o professor Ricardo Theis Geraldi assumiu oficialmente a orientação do projeto, após convite do professor Awdren Fontão.
Desde então, o Ledes Games passou a contar com estrutura institucional própria, articulando pesquisa, extensão e participação em competições e eventos internacionais, como a GameJam+ (GJ+).
Além de Ricardo Theis, integram o projeto as professoras Débora Paiva e Maria Istela Cagnin, da Facom, o professor Vitor Zan, da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação (Faalc), e o professor Antonio Paranhos Filho, do Programa de Pós-Graduação em Tecnologias Ambientais (PPGTA).
Games digitais como ferramentas de transformação
O diferencial do Ledes Games está justamente na utilização dos jogos digitais como instrumentos ativos de aprendizagem, conscientização e inclusão.
Os projetos desenvolvidos abordam temas como educação ambiental, acessibilidade para pessoas cegas, inclusão feminina, educação no trânsito, saúde mental e neurodiversidade, além da valorização da ciência e cultura regional. “A engenharia de games ainda carece de mão de obra especializada e de investidores que apostem no potencial econômico desse setor no Brasil. Estamos construindo soluções que unem inovação tecnológica, impacto social e desenvolvimento econômico”, afirma Theis.
Entre os principais projetos está o Pantanal World, game voltado ao público infantojuvenil que promove conscientização ambiental sobre a fauna do Pantanal e do Cerrado.
Segundo os desenvolvedores Miguel Albuquerque e Gilvan Júnior, o jogador percorre cenários inspirados na natureza brasileira interagindo com mais de 27 espécies de animais, enquanto aprende conteúdos relacionados à alfabetização, leitura e escrita.
O reconhecimento institucional já começou a aparecer. O projeto foi indicado à premiação da trilha da COP-15 durante o Integra 2025 da UFMS, evidenciando seu potencial socioambiental. Outro destaque é Theseus’ Odyssey, game inspirado no mito grego de Teseu, desenvolvido com foco em acessibilidade para pessoas cegas.
De acordo com Arthur Barbosa, integrante do projeto, o diferencial está na utilização de tecnologias assistivas e feedbacks sonoros que garantem autonomia ao jogador durante toda a experiência. Além da acessibilidade, o jogo trabalha estratégia, narrativa e elementos da cultura clássica de forma imersiva e educativa.
Ciência, tecnologia e multidisciplinaridade
A base metodológica do projeto está na aplicação da Design Science Research (DSR), abordagem científica voltada à criação e aprimoramento contínuo de soluções inovadoras.
“O game é avaliado constantemente por usuários e especialistas para atender o público da melhor maneira possível. A partir dessas avaliações também surgem novas descobertas capazes de otimizar métodos de desenvolvimento, design e algoritmos computacionais”, detalha Theis.
A complexidade dos projetos exige uma atuação multidisciplinar, reunindo conhecimentos das áreas de Computação, Artes, Música, Meio Ambiente, Educação, Psicologia, Saúde e Ciências Sociais. Essa diversidade também se reflete na formação do time, composto majoritariamente por estudantes da Computação, mas com participação de acadêmicos de Artes, Comunicação, Música e Engenharia Ambiental.
Expansão e projeção internacional
Mesmo em fase de desenvolvimento, os games já vêm sendo apresentados em eventos institucionais como o Integra UFMS e a COP15 POP, despertando interesse do público e de possíveis parceiros estratégicos. O projeto também avança na construção de parcerias com empresas e instituições ligadas ao setor de tecnologia e games.
Entre os parceiros está a Asantee Games, empresa sul-mato-grossense responsável pelo sucesso internacional Magic Rampage, game que ultrapassou a marca de 50 milhões de downloads. “Essa empresa nasceu na incubadora da UFMS, possui visibilidade internacional e serve como inspiração para todos nós”, destaca Theis. O ecossistema conta ainda com apoio da Associação de Jogos de Mato Grosso do Sul, Senac Hub Academy, Meninus Games e professores do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS).
Entre os próximos passos estão a expansão da equipe, o desenvolvimento de novos títulos e a consolidação do Ledes como um estúdio universitário de engenharia criativa de games digitais. Um dos projetos mais ambiciosos é o desenvolvimento do Pantanal World 3D, versão tridimensional do universo pantaneiro, criada para levar a biodiversidade sul-mato-grossense ao cenário internacional.
Games para mudar o mundo real
Para Ricardo Theis, a principal transformação promovida pelo projeto está na mudança da forma como os games são compreendidos pela sociedade contemporânea.
“A inovação deixou de ser passiva e passou a ser ativa e interativa. Os games permitem que as pessoas não apenas assistam a uma história, mas participem dela. Isso cria empatia, reflexão e consciência sobre problemas reais da sociedade”, afirma.
A ideia é compartilhada por Nathan Rezende, integrante do time, que define os games como ferramentas capazes de criar conexões emocionais profundas por meio da narrativa, da trilha sonora e do design visual. Atualmente, o game Pantanal World já está disponível para download na Play Store. Os demais projetos do Ledes Games podem ser acessados pela página oficial: Ledes Games UFMS
Além do ambiente virtual, o grupo também aposta em ações presenciais, como a criação de um fliperama itinerante em parceria com a equipe de robótica Ararabots, levando os games para escolas, eventos e espaços públicos. Entre códigos, narrativas interativas e inovação científica, o Ledes Games se consolida como um exemplo de como a universidade pública pode integrar ensino, pesquisa, extensão e empreendedorismo para desenvolver soluções capazes de dialogar com desafios reais da sociedade e contribuir para transformar o mundo ao redor.








